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	<title>Blog da Identidade Musical &#187; formação do público</title>
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		<title>O show que não aconteceu, e o público que quer ouvir música</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 13:21:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2010/03/15/showguns/' addthis:title='O show que não aconteceu, e o público que quer ouvir música'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Confesso: eu era fã dos Guns n&#8217; Roses no fim dos anos 80 e início dos 90. Não que gostasse das palhaçadas do Axl Rose, que sempre me soaram estrelismos de um inseguro com o rei na barriga. Mas achava que o Appetite for Destruction era um álbum de primeira qualidade, que deveria figurar nas [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2010/03/15/showguns/' addthis:title='O show que não aconteceu, e o público que quer ouvir música' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/03/guns-n-roses-03.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2398" style="margin-left: 10px; margin-right: 10px;" title="guns-n-roses-03" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/03/guns-n-roses-03.jpg" alt="" width="180" height="145" /></a>Confesso: eu era fã dos Guns n&#8217; Roses no fim dos anos 80 e início dos 90. Não que gostasse das palhaçadas do Axl Rose, que sempre me soaram estrelismos de um inseguro com o rei na barriga. Mas achava que o <em>Appetite for Destruction</em> era um álbum de primeira qualidade, que deveria figurar nas listas de melhores discos do século. O tempo passou, é claro, e minha tietagem pelo Guns também: aquele som é divertido, mas não era pra tanto. Fui ouvindo cada vez mais outras coisas, e Axl e seus asseclas foram ficando cada vez mais para trás. Ouvir Guns, para mim, hoje, é desfrutar daqueles momentos de nostalgia, em que eu beijava a namorada ao som de &#8220;Patience&#8221; ou &#8220;Don&#8217;t Cry&#8221;. Numa viagem com amigos do colegial, colocar &#8220;Paradise City&#8221;, num churrasco pode ser uma boa pra animar, as pessoas se lembram dos tempos de escola, etc. O show do Guns em 92, no Anhembi, em que chovia torrencialmente, foi inesquecível: no dia seguinte, sem gripe, sem sono e sem ressaca, fiz recuperação de Física e passei de ano. Bons tempos em que eu estudava por apenas uma tarde, ia a um show à noite, tomava cerveja e chuva a noite toda e no dia seguinte não tinha ressaca e passava de ano &#8211; e a trilha sonora de tudo isso era Guns n&#8217; Roses. Mas não dá mais pra levar o Guns a sério. Hoje, pra uma noite de cervejada, tenho dois dias de ressaca. Se vou estudar para uma prova, preparar aula ou apresentar algum trabalho acadêmico, não bebo nada e durmo bem, pra ficar inteiro no dia seguinte.</p>
<p>O engraçado é que, hoje, as coisas deveriam ter mudado. Não fui ao último show do Metallica, mas os amigos do <a href="http://www.myspace.com/madamesaatan" target="_blank">Madame Saatan</a> foram e me contaram que a banda foi extremamente simpática com o público. Inacreditável, se lembrarmos que o Metallica, na minha mesma época de colegial, fazia shows protocolares, com o som baixo, tentando sabotar o Sepultura. Parece que até megastars como eles estão sentido na carne que a relação com o público é fundamental para uma carreira longeva. Dar uma de celebridade, socando a cara de jornalistas, jogando cadeiras pelos ares (lembram dessa que o Axl aprontou?), ofendendo a tudo e a todos, atrasando a entrada no palco em mais de uma hora &#8211; tudo isso parece soar como amadorismo e estrelismo. Até às maiores celebridades se pede que cumpram o horário e que evitem conflitos com a imprensa e o público. Amy Winehouse ainda existe e faz das suas, mas o estilo junkie parece um pouco fora do tempo e do espaço.</p>
<p>Aliás, desde a palhaçada de mais de <a href="http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2006/not20060117p3618.htm" target="_blank">doze horas de fila para não conseguir ingresso para o show do U2</a>, não frequento megashows. Quem não se lembra das filas nas portas dos Pães de Açúcar pela cidade, com fãs espertinhos, no mais legítimo &#8220;brazilian way of life&#8221; (leia-se &#8220;jeitinho brasileiro&#8221;, mas em inglês, porque gostamos de ser importantes), levando parentes idosos ou crianças de colo para furar a fila? E o Pão de Açúcar pedindo desculpas publicamente pela desorganização, enquanto todo mundo sabia que havia privilegiados (além dos espertinhos que burlavam as filas) que conseguiram ingressos sem problemas? E as <a href="http://euelaocoeoaffairredivivo.blogspot.com/2009/03/radiohead-e-vida-de-gado.html" target="_blank">reclamações das pessoas que foram ao show do Radiohead, levando mais de duas horas para conseguir sair da Chácara do Jóquei</a>? E, pra acabar, os preços absurdos cobrados para ficar num local pouco privilegiado no estádio, depois de pegar trânsito para chegar, enfrentar filas, ter de urinar em banheiros químicos imundos? Tudo isso me encheu o saco e decidi: é trabalho demais, pra show de menos, de quem quer que seja. Nem Axl, nem Bono, nem ninguém vale o esforço.</p>
<p>Escrevo essa introdução enorme para me divertir um pouco às custas da última de Axl Rose, que não deu as caras num show fechado que foi motivo de notícia na net na semana passada. <a href="http://ilustradanopop.folha.blog.uol.com.br/" target="_blank">No blog do Guia da Folha</a>, lia-se o seguinte:</p>
<p style="text-align: right;"><em>Estava tudo preparado para o show secreto e intimista do Guns n&#8217; Roses no clube Disco, quinta à noite, em SP.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Palquinho montado com bateria, teclado e percussão; setlist com 17 músicas (com &#8220;Paradise City&#8221; encerrando); vários fãs verdadeiros da banda no local (Marcos Mion, Ana Beatriz Barros, Daniella Cicarelli, Isabelli Fontana etc.); produtores do grupo à espera.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Aí, por volta da 0h30, alguém diz: &#8220;O Axl vai deixar o hotel [Hyatt] à 1h&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>À 1h, outro alguém avisa: &#8220;O Axl vai deixar o hotel às 2h&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Aí às 2h30 surge o rumor: Axl estaria com dor de garganta e teria sido levado a um hospital. Pouco depois, os equipamentos começam a ser desmontados.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Lá dentro, brigas. Endinheirados revoltados se socando; uma modelo tentando bater na outra com uma garrafa de champanhe&#8230; Do lado de fora, mais confusão, correria, xingamentos. Uma equipe do Pânico foi agredida; dois seguranças da casa pularam uma cerca e foram atrás de um rapaz.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Segundo o próprio Marcos Mion, um dos sócios da casa, outro dos donos da Disco, Marcos Maria, brigou com os seguranças da banda, que estavam levando os instrumentos que o clube havia locado. Que beleza.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E assim foi o &#8220;show secreto&#8221; do Guns na Disco.</em></p>
<p style="text-align: left;">&#8220;Show<em> </em>secreto&#8221;: nada me soa mais &#8220;brazilian way of life&#8221; do que isso. Algo como &#8220;o povão curtirá apertado, fedendo a suor, a cerveja e a maconha ruim, o show do Guns; nós aqui teremos Axl fazendo um show intimista&#8221;. Perfeito para uma pauta na revista Caras, perfeito para dizer em alguma balada ou restaurante caro, com ar blasé &#8220;estive no show secreto do Guns e&#8230;&#8221;. A cultura do privilégio correndo solta, com garrafas de champanhe à vontade e celebridades correndo rumo aos flashes. Em suma: os escolhidos, os que não se misturam fazendo tudo que os pobres mortais não fazem.</p>
<p style="text-align: left;">Mas veja que curioso: celebridade também é gente. Não é só nas casas noturnas das classes médias ou baixas que rolam brigas: endinheirados também se socam. A diferença é que as meninas, em vez de puxarem os cabelos ou de se arranharem, ameaçam-se com garrafas de champanhe.</p>
<p style="text-align: left;">Escrevo este texto não só para me divertir às custas dos célebres e ricos (ou daqueles que querem estar entre eles), cuja pretensa &#8220;educação&#8221; é exatamente o que os faz evitar o contato com as pessoas comuns. Ora, leitores: ir ao show secreto, além de render status nas colunas sociais, também é uma forma de mostrar-se acima do público comum, para além dele.</p>
<p style="text-align: left;">Mas também escrevo este texto para apontar algo curioso: existe uma necessidade &#8211; e esta me parece real, genuína &#8211; de assistir a um show num ambiente menor, em que se possa aproveitá-lo de forma mais autêntica e menos estressante. É quase unânime o seguinte discurso: os shows menores &#8211; para quem vai ao show para poder ouvir a música, bem entendido &#8211; são melhores, porque o artista pode interagir de modo menos pasteurizado com a platéia, que pode concentrar-se exclusivamente na música &#8211; e, em última análise, num show, é ela que interessa.</p>
<p style="text-align: left;">Aliás, deixem-me lembrar aqui de outro show que deveria ser, supostamente, civilizado, e que me soou como ida ao zoológico: o show de Chico Buarque. Ora: trata-se do espetáculo em que não se esperava do público nada mais do que respeito ao artista, dada a unanimidade que é o compositor. Entre uma música e outra, ouviam-se gritos histéricos de &#8220;casa comigo, Chico&#8221;, ou &#8220;Gostoso!&#8221;, ou &#8220;Tesão!&#8221;. Estávamos sentadinhos em mesas elegantes, servidos por garçons, tudo no melhor estilo &#8220;show civilizado&#8221;. Mas, ao nosso lado, ao longo de toda a apresentação, uma pessoa falava insistentemente ao telefone, explicando aos parentes ou amigos que estava no show do Chico, que ele lhe parecia ainda mais bonito do que nas fotos, embora já um pouco velho&#8230;</p>
<p style="text-align: left;">Minha impressão: ir ao show do Chico Buarque, para aquelas pessoas, não era ouvir as canções do Chico, mas poder dizer aos outros (em tempo real, inclusive) que elas estiveram (<em>estava</em>) no show do Chico &#8211; uma réplica da cultura à celebridade que foi por água abaixo no show secreto do Guns. Trata-se de um tipo de público de que quero distância: aquele que lê nos guias de cultura &#8220;o que está pegando&#8221; e que vai pra dizer que foi. Para essas pessoas, a obra de arte ali apresentada é o pretexto, não é a finalidade do evento. Pena.</p>
<p style="text-align: left;">É claro que no show secreto do Guns havia fãs que queriam de fato ouvir as músicas. Mas a descrição feita no blog do Guia da Folha me deu a impressão de que a maioria das pessoas que estava lá apareceu pra poder dizer que&#8230; estava lá: reflexo nítido da cultura às celebridades, que ganha contornos especiais no Brasil, em que o nosso desejo de aparecer mais do que os outros vem carregado do desejo de esmagá-los. Não basta ter o privilégio de assistir a um show fechado do Guns, é preciso também, nessa mesma lógica, poder mostrar aos outros como eles são inferiores por não gozarem de tal privilégio.</p>
<p style="text-align: left;">Tudo isso fica ainda mais patético quando se trata de um show fechado <em>do Guns n&#8217; Roses</em>, banda que convenhamos, nem é tudo isso. Respeito todos os gostos, já disse aqui, mas não posso deixar de dizer que o vexame é maior quando uma confusão como essa acontece por causa de uma banda meia boca, de sucessos requentados e de um disco recente que não fede nem cheira.</p>
<p style="text-align: left;">Ora, se é pra brigar, melhor usarmos a cabeça e explorar cada vez mais espaços pequenos e médios para bandas de qualidade, de modo que possamos formar um público que vai aos lugares para <em>assistir aos shows</em>. Deixemos para lá os espetáculos fechados, para poucos privilegiados ou amigos de privilegiados: trabalhemos para que haja muitos shows pequenos ou médios em espaços para que boas bandas brasileiras possam mostrar seu trabalho; para que esses espaços possam receber adequadamente o público, com facilidade de acesso, com acessibilidade, a preços justos, com banheiros limpos, de preferência. Deixemos para lá a cultura às celebridades e mergulhemos nas canções. Já passou da hora de dar importância ao público que vai aos shows para ouvir música.</p>
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		<title>Porcas Borboletas e Cérebro Eletrônico: epifanias e a dupla função intrínseca da canção</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Sep 2009 05:21:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
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		<category><![CDATA[formação do público]]></category>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/09/06/porcashow/' addthis:title='Porcas Borboletas e Cérebro Eletrônico: epifanias e a dupla função intrínseca da canção'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Nunca vi nada parecido com o show das Porcas Borboletas no Studio SP, na última quinta-feira. Restou-me redigir intuitivamente, com a força da perspectiva em primeira pessoa, sem preocupações objetivas, por aqui, as fortes impressões que a banda mineira me causou. Qualquer epifania precisa de preparação. Com isso quero dizer que ainda não me acostumei [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/09/06/porcashow/' addthis:title='Porcas Borboletas e Cérebro Eletrônico: epifanias e a dupla função intrínseca da canção' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-1177" title="a-passeio_capa" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-passeio_capa.jpg" alt="a-passeio_capa" width="220" height="198" />Nunca vi nada parecido com o show das <a href="http://www.myspace.com/porcasborboletas">Porcas Borboletas</a> no Studio SP, na última quinta-feira. Restou-me redigir intuitivamente, com a força da perspectiva em primeira pessoa, sem preocupações objetivas, por aqui, as fortes impressões que a banda mineira me causou.</p>
<p>Qualquer epifania precisa de preparação. Com isso quero dizer que ainda não me acostumei com os horários praticados nas casas noturnas, sei lá, de uns dez anos para cá, embora tenha começado a entendê-los. Quinta-feira, mais de meia-noite, quando <a href="http://identidademusical.com.br/blog/about/tiago-barizon/">Barizon</a> e eu entramos no Studio SP, não havia mais de dez pessoas na casa. Preocupei-me, porque queria que o lançamento do <a href="http://compactorec.foradoeixo.org.br/">CD do Porcas</a>, em São Paulo, fosse memorável &#8211; a cena daqui tem precisado de espetáculos memoráveis para fortalecer-se. O que parecia quase impossível para meu pessimismo aconteceu e, antes que o <a href="http://www.cerebrais.com.br/cerebrais/index.htm">Cérebro Eletrônico</a> entrasse no palco, a casa já estava cheia.</p>
<p><img class="size-full wp-image-1178 alignright" title="cerebro_eletronico(1)" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/09/cerebro_eletronico1.jpg" alt="cerebro_eletronico(1)" width="220" height="220" />Quem já viu o Cérebro em ação sabe que o show da banda chama a atenção por muitos motivos &#8211; do repertório, é claro, ao figurino, especialmente os trajes de Tatá Aeroplano, sempre de chapéu, espocando papel brilhante pelo palco, sem perder a leveza que se espalha no espaço quando os caras tocam &#8220;Pareço Moderno&#8221;. Se acompanharmos atentamente a letra da canção, perceberemos que há ali algumas aflições (manias, surtos, nóias) &#8211; mas que elas jamais prejudicam o todo, que é equilibrado, principalmente pelos efeitos tão caros à banda, que seguem ecoando no público e na casa. Em resumo, com outras palavras, permitindo-me as impressões mais diversas: o Cérebro não só <em>abriu </em>para as Porcas, no sentido tradicional do termo, mas também <em>abriu</em> a disposição e a percepção do público para o show que viria a seguir.</p>
<p>Foi bonito o que Tatá e seus asseclas aprontaram, porque foram anfitriões mais que especiais. Quando falamos, aqui no blog, a respeito de formação de público e fortalecimento da cena, temos na cabeça práticas que rolaram na noite de quinta &#8211; a banda da casa cedendo espaço e atenções à banda visitante, valendo mais a festa coletiva do que quaisquer egos inflados. O público ganha muito com a proximidade entre bandas, porque o potencial criativo só aumenta. Inclua-se aí a participação de <a href="http://www.myspace.com/vanguart">Hélio Flanders, do Vanguart</a>, no espetáculo do Cérebro e das Porcas. A atmosfera era de integração, de abraços, de encontro.  </p>
<p>A expectativa, portanto, acentou-se fortemente quando as Porcas preparavam-se para tocar. Todos os fumantes tiveram de sair para dar uns tragos antes da entrada da banda, todos os presentes pediram mais uma bebida &#8211; todos queriam viver mais, transformar a experiência de ver Porcas Borboletas em algo mais intenso, sem que se estragasse a harmonia que imperava no ambiente.</p>
<p>Já vi muito blogueiro reclamar do público &#8211; afirmando que este não participa, que não está disposto a novas experiências, que só quer os enlatados do rádio. Afirmações que são, na maioria das vezes, verdadeiras. Quem estava no Studio SP na quinta-feira, contudo, terá revisto essas generalizações. Em termos bem simples (porque não estou muito disposto a polêmicas hoje, ainda contaminado que estou do clima de quinta à noite): quando as canções e a banda são boas, quando os arranjos tiram o ouvinte da acomodação previsível das FMs, quando as letras provocam, o público se hipnotiza pelo espetáculo e se integra a ele.</p>
<p>É bonita a imagem que roubo às aulas de Luiz Tatit: a revelação, a epifania com a arte, o momento do arrepio com a canção, da lágrima que corre descontrolada,  acontece quando nossos objetos de análise - a canção, o filme, o poema &#8211; tomam vida; deixam, portanto, de ser objetos e se tornam sujeitos &#8211; atuam sobre o público, emocionando-o, provocando-o, excitando-o, incitando-o.</p>
<p><img class="alignleft" style="margin-left: 10px; margin-right: 10px;" src="http://www.overmundo.com.br/_agenda/img/1186910891_porcas_borboletas_credito_wvalente_reduzida.jpg" alt="" width="337" height="224" />O espetáculo das Porcas Borboletas é rigorosamente tudo isso. As canções que fazem pular são as mesmas que fazem pensar &#8211; e nos tomam de forma tal que nos emocionam os versos introspectivos de &#8220;A passeio&#8221;; causa revolta o mundo das celebridades artificiais em &#8220;Estrela Decadente&#8221;; mas nos diverte a imagem do &#8220;Super-herói playboy&#8221;, num efeito muito próximo do que talvez seja a <em>dupla função intrínseca </em>da boa canção: divertir e provocar; fazer curtir e fazer pensar. Sério, Enzo Banzo encara o público, fixa o olhar num ponto da platéia, como que à procura das impressões, como se colecionasse tudo que a banda causa no público. Danislau toma goles de cerveja que lhe oferecem, senta no chão, ao lado da bateria, sorri, planta bananeira, sai do palco, volta de bermuda e camiseta, em perfeita integração com os parceiros e a platéia. A sonoridade e os barulhos de Ricardim e de Jack chamam a atenção &#8211; a lata de tinta voa alto, cai no chão, assusta quem está mais próximo, diverte quem já se acostumou - mas não roubam a cena, amarram-se ao todo, aos arranjos de Moita, Rafa e Vi e aos gritos titânicos de toda a banda, que nos avisam que não vamos pro céu nem seremos estrelas.</p>
<p>Habitam o palco, com toda a banda, presentes ou não, todos que contribuíram com <em>A passeio</em>: Simone Sou, Alfredo Bello -  o DJ Tudo - e Hélio Flanders (mais uma vez ele) marcaram presença física, mas também sentem-se os ares e os quês de Arrigo Barnabé, Bocato, Junio Barreto, Paulo Barnabé, Marcelo Monteiro, Gui Cotonete, Arthur de Faria, Marcelo Jeneci. Estão todos lá, ainda que não estejam. E ao final, o espetáculo vira festa, o palco é tomado por alguns representantes da platéia &#8211; e sobem Tatá Aeroplano, Rangel, Daniel Belleza.</p>
<p>Amparado pelo bar, não entendia bem o espetáculo que tinha visto, as canções ecoavam &#8211; ecoam até agora &#8211; no labirinto da alma, todas elas, cada uma delas &#8211; e fico, desde então, a passeio tortuoso mas delicioso dentro em mim, com a certeza de que as horas de sono que perdi são horas de vida que ganhei, porque não sei viver menos. Posso sentir até agora tudo que as Porcas Borboletas fizeram vibrar ali, naquele dia. Minas Gerais é terra de poetas assim, tem Drummond, tem Guimarães Rosa, tem Porcas Borboletas.</p>
<p>Na minha saída, dei um abraço forte em Banzo, esbocei-lhe, confuso, estas impressões, ainda desorganizadas naquela hora, e fui-me embora, dizendo ao Barizon que tive uma epifania.</p>
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		<title>O fantasma de Anchieta na Virada Cultural de 2008</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 15:44:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/08/29/anchieta-virada/' addthis:title='O fantasma de Anchieta na Virada Cultural de 2008'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>O texto abaixo foi publicado logo depois da Virada Cultural de 2008. Parece pouco tempo, mas não é. De lá para cá, a tal crise financeira se abalou sobre os mercados, e São Paulo teve outra virada, sem palco independente &#8211; o que foi lamentável, mas bastante sintomático, bom para a gente aprender como funcionam [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/08/29/anchieta-virada/' addthis:title='O fantasma de Anchieta na Virada Cultural de 2008' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>O texto abaixo foi publicado logo depois da Virada Cultural de 2008. Parece pouco tempo, mas não é. De lá para cá, a tal crise financeira se abalou sobre os mercados, e São Paulo teve outra virada, sem palco independente &#8211; o que foi lamentável, mas bastante sintomático, bom para a gente aprender como funcionam de fato as coisas: no corte de orçamento devido à crise, optou-se por eliminar exatamente as apresentações de artistas que mais precisam de espaço.</p>
<p>De qualquer maneira, posto o texto porque, de forma geral, ele continua atual nas reflexões, inclusive sobre conceitos que temos desenvolvido aqui no blog, como a ideia de formação de público. Essas reflexões foram feitas de forma quase literária (como o leitor poderá verificar, se tiver a paciência de chegar ao fim do texto, talvez muito longo para os padrões da internet), o que me divertiu bastante, quando o escrevi. Certamente foi um de meus textos menos lidos e menos comentados no Showlivre, mas ainda é um dos que mais gosto.</em></strong></p>
<p><a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecCrTjLesGY/SXnX8nMKjLI/AAAAAAAAAEg/JmeJA8GXIYg/s1600-h/Mario_Andrade.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5294500273262857394" style="float: left; margin: 0px 10px 10px 0px; width: 176px; cursor: hand; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecCrTjLesGY/SXnX8nMKjLI/AAAAAAAAAEg/JmeJA8GXIYg/s320/Mario_Andrade.jpg" border="0" alt="" /></a>Os leitores mais assíduos desta coluna hão de lembrar que <a href="http://ametricadogrito.blogspot.com/2009/01/pequena-potica-dos-inocentes-e-o.html">me encontrei com o fantasma de </a><a href="http://ametricadogrito.blogspot.com/2009/01/pequena-potica-dos-inocentes-e-o.html">Mário de Andrade, durante a gravação do DVD dos Inocentes</a>. Foi experiência única: juro que vi aquele poeta e pesquisador da cultura popular brasileira, primeiramente, assustado com a barulheira das guitarras e o acotovelamento dos punks mais jovens; depois, já convencido de que o poeta que ali cantava e de que o público que ali berrava eram tão brasileiros quanto ele, deixou-se levar, cerrou os punhos e bradou <em>&#8220;</em>Pânico em SP&#8221; – só não digo que o fez “a plenos pulmões” porque o fantasma de Mário de Andrade não os tem, e, se os tivesse, não seriam plenos, desgastados que estariam do cigarro. Não disse a ninguém que o poeta estava ali – tive a impressão de que ele não queria ser reconhecido, nem queria roubar a cena dos <a href="http://www.myspace.com/inocentes">Inocentes</a>: ouviu o som, pulou e gritou bastante, mandou um beijo, de longe, para o Clemente, que acenou agradecendo, e foi-se embora, cotejar os resultados da pesquisa sobre música popular que fez com aquela forma tão explosiva de canção. Tive medo: somente eu teria visto o líder modernista no meio do êxtase do público? Era alucinação, ou eu o vira de fato?</p>
<p>Deixei pra lá essa história, que não sou de dar bola às coisas do outro mundo. Mas elas insistem em me seguir. Num sábado recente de calor infernal, pensei em dormir no início da noite, curtir meus cachorros, acordar cedinho no domingo e tentar levar uma vida normal; revirando na cama, meio acordado, meio dormindo, tive a impressão de tomar um cutucão áspero, como se alguém tivesse usado um longo graveto de madeira cheio de areia para acordar-me. Aceitei: era um sinal. E lá fui a um show do Ludovic, aberto pelo <a href="http://www.myspace.com/madamesaatan">Madame Saatan</a>, onde encontrei <a href="http://www.myspace.com/losporongas">Diogo do Los Porongas</a> e conheci o pessoal do <a href="http://www.myspace.com/macacobong">Macaco Bong</a>. Fosse quem fosse o ser que me tivesse acordado, por que teria me mandado ali? Tomei coragem e disse ao acreano, depois de umas cervejas, que o rock independente brasileiro tinha força para minar a pasteurização e a alienação engendrada pelas grandes gravadoras, para conscientizar e sensibilizar o público, para mudar o Brasil – talvez o mundo.</p>
<p>Mesmo cutucão na terça-feira: era dia de assistir ao <a href="http://www.juliacar.com/">Julia Car</a> na choperia do Sesc Pompéia, com a participação do Clemente. </p>
<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/iCjibzLLFW4&#038;hl=pt-br&#038;fs=1&#038;"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/iCjibzLLFW4&#038;hl=pt-br&#038;fs=1&#038;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
<p>Depois do show, aprendi com o mestre, a quem ofereci uns chopes: “A cena independente hoje é mais forte do jamais foi; o que falta é criar uma indústria independente”. Tomei os chopes e fui para casa.</p>
<p>No sábado, dia da Virada Cultural, quase dormindo, ouvi frases em tupi sussurrando-me ao ouvido; os cachorros latiram, sinal aziago, pulei assustado da cama: seria o fantasma do poeta modernista? Não dormia, não dormia, não dormia: vou pra Virada, ao menos divido a insônia com mais um milhão de pessoas. Acordei a mulher, pegamos o metrô. E foi no Pátio do Colégio, berço da cidade de São Paulo, que entendi tudo que acontecera comigo ao longo daquela semana.</p>
<p><a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecCrTjLesGY/SXnYzw4foCI/AAAAAAAAAEw/Eiy8XZVN58Y/s1600-h/Trilobit.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5294501220757512226" style="float: left; margin: 0px 10px 10px 0px; width: 320px; cursor: hand; height: 159px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ecCrTjLesGY/SXnYzw4foCI/AAAAAAAAAEw/Eiy8XZVN58Y/s320/Trilobit.jpg" border="0" alt="" /></a>Primeiro: foi lá que arrumei o que fazer ao longo de toda a semana seguinte – pesquisar as bandas instrumentais independentes que têm surgido e eu não conhecia. Assustei-me: o fantasma, ou o que quer que tenha me acordado ao longo da semana, poderia ser algum dos integrantes do <a href="http://www.myspace.com/bandatrilobit">Trilöbit</a>, todos eles extraterrestres. </p>
<p>E perguntei assim: estará o público pronto para bandas cujas canções não têm letra? Concluí que sim, já que muitos dos que estavam por ali vibravam com os alienígenas. E entendi da seguinte maneira: o que talvez os independentes ainda estejam descobrindo é como formar público – e perceba, leitor, que <em>formar </em>público é diferente de <em>ganhar </em>público. Na indústria fonográfica tradicional, as canções são produtos; o capital destinado à produção é investimento; a diversidade de gêneros (que no fundo repetem a mesma coisa) é mix de produtos; os ganhos auferidos ao final são lucro ou retorno sobre o investimento. </p>
<p>Ora, já vem se delineando – espero que já venha se delineando – na música independente uma outra lógica: as canções ou músicas são <em>obras de arte</em>; a produção, de custos baixos e de qualidade, é sobretudo <em>resultado de paixão</em>; a <em>diversidade</em> é condição necessária, já que a pretensão não é fazer que o artista se torne produto consumível, mas que ele seja admirado pelas <em>qualidades estéticas intrínsecas a sua obra</em>; a grana obtida ao final é <em>ganha-pão que dá vazão a mais criatividade</em>. E essa é meio que uma síntese das coisas que eu tinha pensado no dia em que encontrei Diogo dos Los Porongas, que, não demorou muito, subiu no palco e bradou, para o público que se avolumava a olhos vistos e para todos os fantasmas que dormem na cripta da Sé, perto dali: “Esta é a prova de que não é preciso depender de grandes gravadoras para fazer música no Brasil! Viva a internet!”. Aí entendi: o acesso barato às tecnologias de gravação e a internet, que favorece a difusão, fazem que a parafernália da indústria fonográfica possa ser dispensável.</p>
<p><a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecCrTjLesGY/SXnZl6Dxt5I/AAAAAAAAAE4/yqSDaKKiiLw/s1600-h/Anchieta.jpg"><img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5294502082214213522" style="float: left; margin: 0px 10px 10px 0px; width: 264px; cursor: hand; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecCrTjLesGY/SXnZl6Dxt5I/AAAAAAAAAE4/yqSDaKKiiLw/s320/Anchieta.jpg" border="0" alt="" /></a>O problema foi que Diogo gritou alto, mas tão alto, que despertou fantasmas demais – inclusive aquele que me cutucara a semana toda. Já havia na frente do Pátio do Colégio caciques indígenas, bandeirantes, degredados e pessoas queimadas pela inquisição. E junto a esses fantasmas todos, na frente do antigo colégio dos jesuítas, eu vi – duvidei de meus olhos, mas eu vi mesmo, e juro que não havia tomado nada – eu vi o fantasma do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_de_Anchieta">Padre José de Anchieta</a>. Ele trazia nas mãos o graveto que usara para escrever na areia da praia; e sorria, porque começava a entender os equívocos de seu tempo. José de Anchieta reviu a própria obra – ele, que chegou a escrever autos em língua tupi para levar a fé cristã aos indígenas, percebeu que lhe faltou fé para acreditar que nesta terra a diversidade faria milagres. E dizia a canção: “Tudo ao contrário então / Tudo à vontade então”. E o padre sacou que o público que se agrupava por ali tinhas as linhas de erê tatuadas nas costas, como havia cantado uma menina, dias antes, no SESC Pompéia. E percebeu que o idioma dos indígenas que ele tentara aculturar dava origem ao nome do conjunto que ali tocava.</p>
<p>Ora: eu passara vontade de falar com o fantasma do Mário de Andrade; não deixaria passar a chance de bater um papo com o Anchieta. Diria a ele que não se impressionasse: as mulheres tinham alcançado um papel fundamental no mundo, eram poetisas, tinham a chance de expressar-se, cumpriam papel fundamental na nova canção independente brasileira – elas eram consideradas gente, eram respeitadas, assim como os povos escravizados e dizimados pelos europeus. Mas a multidão crescia, Diogo urrava no palco, as pessoas não paravam de chegar e dançar e pular. E eu precisava dizer ao padre que aquela cidade, que começara numa escola jesuíta na época dele, hoje tinha quinze milhões de pessoas, mas era ainda pequena para abrigar a multiplicidade de urbanidades que se agrupavam ali – eram acreanos, paraenses, cariocas, além dos paulistanos, mas também sul-mato-grossenses, extraterrestres, gaúchos, nordestinos, todas essas pessoas do Brasil, de norte a sul, rumo ao cruzeiro; eram urbanidades amazônicas, do cerrado, do sertão, do litoral, do concreto mesmo de São Paulo, todas essas urbanidades. </p>
<p>Anchieta acenou para o Diogo, que respondeu; o sacerdote, então, voltou as costas para mim, dirigiu-se para o interior da escola e eu gritava, Padre, Padre, por que eu vejo todos os fantasmas de escritores, mas eles só acenam para os vocalistas das bandas?, e era essa a pergunta que eu precisava que fosse respondida, porque eu já havia entendido, e me passava pela cabeça naquele exato momento, que a nova canção independente brasileira tem autonomia para criar, mas tem pela frente grandes desafios, eu não queria estar na pele dela, o primeiro desafio é a <em>formação de um público </em>que não procure estrelas, mas artistas; que queria desfrutar de obras de arte, não consumi-las; o segundo é o <em>máximo aproveitamento das tecnologias disponíveis </em>para a criação e a divulgação de suas obras, sem repetir os vícios da grande indústria fonográfica; o terceiro é lutar cada vez mais pela <em>profissionalização dos músicos</em>, sem explorá-los, sem lesar o que eles têm de mais genuíno, oras, sua arte; o quarto é fazer que essa profissionalização componha o que o Clemente chamou de criar uma <em>indústria independente </em>– toda composta numa lógica nova, sem que músicos e suas obras sejam entendidos como produtos, formando um público que aprecie a arte. </p>
<p>E tudo isso eu pensei num átimo de segundo, enquanto gritava Padre, Padre, por que eu vejo todos os fantasmas de escritores, mas eles só acenam para os vocalistas das bandas?, e ele voltou-se para mim e respondeu, Ora, uns homens são como antenas receptoras das expectativas, das aflições, dos amores e das contradições do seu tempo, é a esses que se chamam trovadores, poetas, hoje cancionistas, aqui os independentes, é a esses homens que nós, os fantasmas, acenamos (eu achei esse jeito de falar muito moderno para um padre, acho que o rock não lhe fez bem, eu esperava que ele me respondesse em português arcaico). E foi-se o padre. E fiquei eu com um monte de teorias, hipóteses, dúvidas, anseios, sonhos – e fui perguntar ao Diogo se ele vira o fantasma, se acenara mesmo para o padre. Mas esqueci, e só falei de mudar o mundo por meio da nova música independente brasileira.</p>
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		<title>Aprendendo com o Pegada e com as bandas de Belo Horizonte</title>
		<link>http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/14/pegada-belo-horizonte/</link>
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		<pubDate>Sun, 14 Jun 2009 22:59:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cena e Mercado]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Drummond de Andrade]]></category>
		<category><![CDATA[Cena Independente]]></category>
		<category><![CDATA[coletivo pegada]]></category>
		<category><![CDATA[formação do público]]></category>

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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/14/pegada-belo-horizonte/' addthis:title='Aprendendo com o Pegada e com as bandas de Belo Horizonte'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Conforme divulgamos aqui, em post anterior, Barizon esteve neste feriado em Belo Horizonte, em evento promovido pelo Coletivo Pegada, para conversar com a turma de lá a respeito da cena independente e da cadeia produtiva da música. E lá fui eu atrás do homem, para registrar momentos marcantes da viagem, ajudar no que fosse necessário, descobrir novas bandas para [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/14/pegada-belo-horizonte/' addthis:title='Aprendendo com o Pegada e com as bandas de Belo Horizonte' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-698" title="avatar_pegada_branco_bigger" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/06/avatar_pegada_branco_bigger.jpg" alt="avatar_pegada_branco_bigger" width="73" height="73" />Conforme divulgamos aqui, em <a href="http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/08/a-cadeia-produtiva-na-musica-independente-palestra-em-bh/">post anterior</a>, Barizon esteve neste feriado em Belo Horizonte, em evento promovido pelo <a href="http://coletivopegada.wordpress.com/">Coletivo Pegada</a>, para <a href="http://www.identidademusical.com.br/palestras/palestra_cena_independente.pdf">conversar com a turma de lá a respeito da cena independente e da cadeia produtiva da música</a>. E lá fui eu atrás do homem, para registrar momentos marcantes da viagem, ajudar no que fosse necessário, descobrir novas bandas para veicular aqui no blog.</p>
<p>O leitor que preferir um relato organizado e claro sobre o que aconteceu no <a href="http://www.minueto.com.br/">Espaço Minueto</a>, na última quinta-feira, leia o <a href="http://www.foradoeixo.org.br/noticia.php?id=1033">texto de Roger Deff, no Portal Fora do Eixo</a>. Confesso que me falta, sobretudo aqui no blog, a escrita objetiva, em terceira pessoa; encanto-me facilmente com os fatos e os espaços: estávamos em terras de Drummond, tentando formular hipóteses sobre a canção contemporânea; tudo me parecia poético, um grande sonho realizável &#8211; a articulação de artistas independentes de Minas e São Paulo, depois de todo o Brasil, pensando alternativas para que a arte não ficasse presa à lógica do lucro, náusea que nos aflige a todos.</p>
<p>Inicialmente, algo que chamou demais a atenção foi a presença: havia mais de quarenta participantes, em plena quinta-feira de feriado, dispostos a debater a cena independente. E foi de fato o que eles fizeram: participaram ativamente, com perguntas, sugestões e relatos de experiências próprias &#8211; muitas delas <a href="http://twitter.com/coletivopegada">registradas pelo próprio Pegada, no Twitter</a>. Genial: ao mesmo tempo que anotava pontos fundamentais do debate, a turma do coletivo divulgava-os a quem quisesse lê-los.</p>
<p>E ingressamos, desse modo, na primeira reflexão deste post: Barizon iniciou o debate afirmando que pretendia (ao contrário do que se costuma fazer no mercado artístico) partilhar informações, dados, hipóteses e experiências &#8211; o que vai acontecer, por exemplo, com a divulgação dos dados obtidos no <a href="http://www.mapamusical.com.br/">Mapa Musical</a>. Não sei o que os participantes pensam disso &#8211; estão todos convidados a se manifestar, se quiserem, por meio de comentários &#8211; mas essa postura é fundamental (é aquilo em que acreditamos aqui na Identidade Musical) para que a <em>cena independente se torne, de fato, um mercado independente de música.</em> Em outras palavras, se não se articularem de fato, os agentes desse mercado estarão fadados a repetir as práticas do <em>mainstream</em>, ou a oferecer-lhe, de bandeja, seus grandes talentos. Eis aí a importância e a responsabilidade de instituições como a <a href="http://www.abrafin.com.br/">Abrafin</a> e o <a href="http://www.foradoeixo.org.br/">Circuito Fora do Eixo</a>.</p>
<p>Proponho, desde já, um problema que apenas tem se delineado nos debates em que estivemos envolvidos: em que o mercado independente pode ser diferente do mercado tradicional de música? Está aí uma pergunta que ainda não pode ser respondida de forma completa, mas cujas respostas estamos buscando.</p>
<p>O <a href="http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/03/artistas-publico-criticos-parte-ii-pitty/">conceito de Formação do Público</a> sempre volta à tona, em conversas como essa; sabemos que os arquivos em MP3, na esmagadora maioria das vezes, resultam em perda de qualidade da canção (processo inevitável no tempo em que vivemos) e na regressão da sensibilidade auditiva do público. Pois que fique o desafio: cabe aos independentes brigar pela inversão desse processo. A canção não é produto-mercadoria descartável &#8211; é obra de arte, antes de tudo. Parto, aqui, até, para uma fala mais radical: é responsabilidade do músico conhecer todo o processo de produção musical, para garantir a qualidade de sua obra e inverter o processo de degradação auditiva do público. </p>
<p>Como dissemos em conversas ao longo do feriado: independente não é sinônimo de amador ou de mal-feito. Usando uma terminologia que muita gente considera envelhecida e outra, que está na moda, mas que diz as mesmas coisas que eram ditas na aurora do mundo que conhecemos, orientado pela lógica do lucro: aquele que desconhece toda a cadeia produtiva em que está envolvido pode ser chamado de <em>alienado. </em>Músicos e obras que fogem à alienação formam público participante, ativo, que não se satisfaz com pouco.</p>
<p>Tudo isso foi o que aprendi com os debates de quinta &#8211; em que foram, por exemplo, relatadas as ações de marketing de guerrilha dos caras da banda <a href="http://www.myspace.com/thkproject">The Hell&#8217;s Kitchen Project</a>, cuja apresentação no Conexão Vivo, em Governador Valadares, segue abaixo:</p>
<p><object width="425" height="344" type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.youtube.com/v/JccQPWS2uLM&amp;color1=0xb1b1b1&amp;color2=0xcfcfcf&amp;hl=pt-br&amp;feature=player_embedded&amp;fs=1"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowScriptAccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/JccQPWS2uLM&amp;color1=0xb1b1b1&amp;color2=0xcfcfcf&amp;hl=pt-br&amp;feature=player_embedded&amp;fs=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /></object></p>
<p>Com o bom-humor dos caras da banda <a href="http://www.myspace.com/monograma">Monograma</a>, aprendi que não dá para haver troca de experiências sem que as pessoas se encontrem pessoalmente. Barizon tem razão: a internet é ferramenta &#8211; mais uma, talvez a melhor delas - mas <em>apenas </em>uma ferramenta. O que precisamos fazer é nos movimentar, encontrarmos aqueles que também querem melhorar o mundo por meio da música, nem que seja só um pouco, uma pequena parte dele, apenas algumas veredazinhas. Nas palavras de Drummond, que parece ter antevisto o nascimento dos independentes, com o poema &#8220;A flor e a náusea&#8221;:</p>
<p><span style="font-size: x-small;"><em>Uma flor nasceu na rua!<br />
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. <br />
Uma flor ainda desbotada<br />
ilude a polícia, rompe o asfalto.<br />
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,<br />
garanto que uma flor nasceu.</em></span></p>
<p><em>Sua cor não se percebe.<br />
Suas pétalas não se abrem.<br />
Seu nome não está nos livros.<br />
É feia. Mas é realmente uma flor.</em></p>
<p><em>Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde<br />
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.<br />
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.<br />
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.<br />
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.</em></p>
<p>A náusea que vivemos todos os dias ficou do lado de fora do espaço Minueto, porque ali foi permitido vislumbrar alternativas de futuro para os independentes. E voltamos para São Paulo com vários parceiros, e amigos novos, e as cabeças cheias de ideias,<em> </em>e sonhos que podem se realizar.</p>
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		<title>Artistas, público e críticos &#8211; Parte II (o Efeito Pitty e a formação do público)</title>
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		<comments>http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/03/artistas-publico-criticos-parte-ii-pitty/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Jun 2009 19:11:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cena e Mercado]]></category>
		<category><![CDATA[crítica]]></category>
		<category><![CDATA[formação do público]]></category>
		<category><![CDATA[Pitty]]></category>

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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/03/artistas-publico-criticos-parte-ii-pitty/' addthis:title='Artistas, público e críticos &#8211; Parte II (o Efeito Pitty e a formação do público)'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>O post de segunda-feira, que continha uma breve análise da canção &#8220;Medo&#8221;, da Pitty, foi, de longe, o mais acessado e comentado aqui no blog da Identidade Musical, em seus breves meses de história. Não pude deixar de lado a pergunta: por quê? Uma análise mais fácil seria a seguinte: Pitty e sua banda já [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/03/artistas-publico-criticos-parte-ii-pitty/' addthis:title='Artistas, público e críticos &#8211; Parte II (o Efeito Pitty e a formação do público)' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/01/pitty-outras-reflexoes/">O post de segunda-feira</a>, que continha uma breve análise da canção &#8220;Medo&#8221;, da Pitty, foi, de longe, o mais acessado e comentado aqui no blog da Identidade Musical, em seus breves meses de história. Não pude deixar de lado a pergunta: por quê?</p>
<p>Uma análise mais fácil seria a seguinte: Pitty e sua banda já são, não há pouco tempo, ícones do rock nacional. Nada disso é mentira, mas essa hipótese desconsidera alguns detalhes que podem passar despercebidos. O primeiro é que a divulgação que fiz se restringiu ao Orkut (no <a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=17846303661838991966">meu perfil</a> e na <a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=39302">maior comunidade da Pitty</a>, que deletou o tópico; depois descobri que há <a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=6132307">uma outra, menor, mas bem mais atuante</a>), ao <a href="http://www.facebook.com/home.php?#/profile.php?id=1766578931&amp;ref=profile">Facebook</a> e ao <a href="http://twitter.com/ametricadogrito">Twitter</a>. Foi neste último site de relacionamento que a própria autora comentou o texto e lembrou que eu não havia notado, na letra de &#8220;Medo&#8221;, uma citação a Proust. Foi o suficiente para os fãs da Pitty encherem este blog de visitas e comentários. </p>
<p>Aprofundando: Pitty é uma frequentadora ativa da internet e já comentou, inclusive, quando esteve no Estúdio Showlivre, que via na rede virtual uma grande aliada dos músicos.</p>
<p><object width="425" height="344" data="http://www.youtube.com/v/lsiCPKVEL6M&amp;color1=0xdfe6f1&amp;color2=0xa5b8d7&amp;feature=player_embedded&amp;fs=1" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/lsiCPKVEL6M&amp;color1=0xdfe6f1&amp;color2=0xa5b8d7&amp;feature=player_embedded&amp;fs=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /></object></p>
<p>Acrescento: a internet talvez seja a <em>maior</em> aliada dos músicos, exatamente porque facilita o contato entre eles e público, sem os filtros (impostos, muitas vezes, pelo poder econômico) da grande mídia. Note que logo depois de afirmar que internet é aliada, Pitty assevera a própria liberdade criativa: ela e a banda não seguem rótulos ou padrões, não determinam caminhos a seguir. Simplesmente tocam &#8211; é o que fazem melhor, porque são músicos; o contato mais próximo com o público, via internet, permite esse tipo de liberdade.</p>
<p>Para mim, foi uma experiência única ler os posts na comunidade da Pitty no Orkut ou no Twitter: em questão de poucas horas, os fãs da roqueira baiana comentavam a canção, debatiam o post aqui da Identidade, corriam atrás da alusão a Proust (que eu desconhecia). Esse contato mais próximo entre o artista e seu público é, a um só tempo, libertador para o primeiro (que pode prescindir das concessões, até as estéticas, para divulgação de sua obra) e enriquecedor para o segundo (que não precisa contar com os pretensos formadores de opinião, muitas vezes movidos por interesses que passam longe da avaliação estética).</p>
<p>Saem de cena os grandes canais da mídia (ou, ao menos, começam a perder espaço), entram em cena os blogs (começamos a entender por que muitos &#8220;formadores de opinião&#8221; rejeitam blogs e sites independentes). E antes que algum leitor me considere autobajulador, esclareço: há muitos blogs, além deste (melhores do que este, com mais história do que este), cujos autores se valem da independência para avaliar as obras dos artistas. Bom para os compositores &#8211; que podem contar com um grupo de &#8220;críticos&#8221; cuja preocupação é estética, e não qualquer outra &#8211; e para os fãs, que podem tomar contato com análises a respeito da obra do artista preferido, livres de interesses que não a própria obra.</p>
<p>Note o leitor que, no parágrafo acima, escrevi sobre avaliações críticas <em>a respeito da obra</em>: na entrevista abaixo, lá pelos 03 minutos e 50 segundos, também no Estúdio Showlivre, Pitty afirma que rejeita a &#8220;idolatria das celebridades&#8221;.</p>
<p><object width="425" height="344" data="http://www.youtube.com/v/7mZQv9-XOT8&amp;color1=0xdfe6f1&amp;color2=0xa5b8d7&amp;feature=player_embedded&amp;fs=1" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/7mZQv9-XOT8&amp;color1=0xdfe6f1&amp;color2=0xa5b8d7&amp;feature=player_embedded&amp;fs=1" /><param name="allowfullscreen" value="true" /></object></p>
<p>Outra lição aprendida com o sucesso do post a respeito de Pitty: no universo da independência, tem de interessar cada vez mais a obra do artista, cada vez menos sua vida particular. Repetir a cultura da celebridade é reafirmar a lógica das gravadoras, que investem mais, às vezes, na imagem dos supostos artistas do que na própria obra de arte. Roupinhas justas, cortes de cabelo excêntricos, cara de mau do guitarrista, sorrisinho colgate e lírico do vocalista, instrumentos estilosos, camiseta preta: assim são os produtos manjados do mainstream; tudo leva a crer que se trata de uma banda de rock, devido à aparência, exceto pelo som, que deveria ser a essência &#8211; mas na essência não há nada, só a velha repetição de modelos já bem conhecidos, sempre de &#8220;roupagem&#8221; nova, para esconder-lhes a decrepitude. Quando o lucro é o único horizonte, a histeria e a fascinação da platéia não recaem nas canções, mas no espetáculo bem planejado, que transforma o próprio artista (?) em produto, e as canções em descartáveis.</p>
<p>Ao deixarmos de lado a vida do artista (que nos interessa ela?), voltamos nossos olhos para a obra. Talvez seja esse o início do chamado processo de <em>formação do público</em>, tão comentado, mas ainda um pouco obscuro. A reflexão aqui no blog tem sempre sido pautada pela ideia de que a cena independente já existe; é preciso consolidar o <em>mercado</em> independente. Palavras são perigosas e poderosas: queremos o <em>mercado independente de cultura</em>, mas não queremos, imagino eu, repetir os vícios da <em>cultura do mercado</em>, orientada pelo lucro. Para fazê-lo, sempre lembrando que criar algo novo implica o processo de tentativa-e-erro-seguido-de-ajuste-que-pode-resultar-em-acerto, podemos pensar da seguinte maneira, em linhas gerais:a proposta estética deve preceder a ambição pelo lucro; isso não significa, contudo, que o artista deva aceitar migalhas quaisquer: ele é profissional, deve ser valorizado por seu trabalho; finalmente: o resultado financeiro deve ser visto como consequência da qualidade estética da proposta.</p>
<p>Mas aí surge o entrave: o público quer obras de qualidade? A resposta é sim, desde que ele tenha os ouvidos preparados para o desfrute estético. Daí a importância da <em>formação do público</em>: busca de casas que abram espaço para diferentes propostas artísticas, de toda ordem, de todos os gêneros; utilização de canais alternativos de divulgação; fomento de eventos, evitando a repetição do discurso &#8220;venha encher a cara e chutar o balde&#8221;, preferindo &#8220;venha desfrutar de arte não-pasteurizada e se divertir <em>com isso</em>&#8220;; acentuação do contato das bandas com o público, sem o culto à personalidade; acentuação do contato entre as bandas, para que adquiram mais força; e, finalmente, valorização da crítica analítica, com foco nas obras, em detrimento do jornalismo de perguntas vazias, que só reforçam a idolatria de celebridades, cujo foco está na vida dos artistas.</p>
<p>Por último: as bandas e os artistas não são concorrentes: o público que queremos formar saberá apreciar as vozes, por exemplo, de Pitty e de Elizeth Cardoso, a despeito das diferenças de gênero e de época; saberá ir do rock à literatura, e voltar ao rock, de Pitty a Proust; de Sepultura a Dante ou Anthony Burguess; de Chico Science &amp; Nação Zumbi a Josué de Castro, e deste a Graciliano Ramos, ou João Cabral de Melo Neto, chegando à literatura de cordel, e desta à Legião Urbana, de volta a Elizeth Cardoso, depois de ter passado pelo Samba-Canção, pela Bossa-Nova, pela canção de protesto, pela Tropicália e pelo rock dos anos 80 e 90, rumo ao presente: &#8220;Evoé, jovens à vista&#8221;, diria Chico Buarque. E assim sucessivamente, em diversos pontos de contato entre as artes, que toda obra de qualidade contém.</p>
<p>A reflexão acima, certamente, guarda equívocos, salvo um: o de sonhar pequeno. Ainda haverá um momento em que todas as propostas estéticas ousadas, que não têm por finalidade primeira o <em>lucro</em>, terão espaço que irá muito além do virtual e público atuante. Todos têm sua hora e sua vez: chegou a dos independentes.</p>
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