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	<title>Blog da Identidade Musical &#187; Vai Passar</title>
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		<title>365: tudo igual na quarta de cinzas</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Feb 2009 17:59:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
				<category><![CDATA[Máquina do Tempo]]></category>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/25/tudo-igual-na-quarta-de-cinzas/' addthis:title='365: tudo igual na quarta de cinzas'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Discutir se o carnaval é uma festa autenticamente popular ou se, principalmente no Brasil, ele serve de instrumento de alienação e de “pão e circo” pode levar a uma briga de grandes proporções. A coisa pode ficar feia se alguém levantar a lebre de que as classes dominantes se apropriaram do carnaval, roubando-o ao povo. Surgirão argumentos de toda ordem... <div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/25/tudo-igual-na-quarta-de-cinzas/' addthis:title='365: tudo igual na quarta de cinzas' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/25/tudo-igual-na-quarta-de-cinzas/' addthis:title='365: tudo igual na quarta de cinzas'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-56" style="margin-left: 7px; margin-right: 7px;" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/02/baianas-imperatriz-20083-150x150.jpg" alt="A ala das baianas da Imperatriz Leopoldinense, em 2008" width="150" height="150" />Discutir se o carnaval é uma festa autenticamente popular ou se, principalmente no Brasil, ele serve de instrumento de alienação e de “pão e circo” pode levar a uma briga de grandes proporções. A coisa pode ficar feia se alguém levantar a lebre de que as classes dominantes se apropriaram do carnaval, roubando-o ao povo. Surgirão argumentos de toda ordem – desde os mais pessoais, como “você já foi a um ensaio de escola de samba e sentiu, de perto, o som da bateria?”, até os mais científicos, com levantamentos a respeito da história do carnaval no Brasil, a origem dos blocos, a comparação entre os carnavais de rua nas diferentes regiões, o “controle” da festa nos sambódromos, enfim: há até quem defenda que o carnaval pode entrar na categoria das coisas que não devem nem podem ser discutidas, como política, futebol e religião. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;">Em plena quarta de cinzas, lembrei-me, então, de duas canções: a primeira delas é <a href="http://www.youtube.com/watch?v=9A_JrsJF6mM">“Vai Passar”, do Chico Buarque</a>, que <a href="http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/19/uma-alternativa-de-futuro/">já comentei por aqui na Identidade Musical</a>. Nesse samba-enredo carioca por excelência, de 1984, ano em que Leonel Brizola inaugurou o sambódromo do Rio de Janeiro, num período carregado de esperanças de redemocratização do Brasil, pode-se vislumbrar um carnaval futuro, em que as injustiças sociais se transformam em alegoria de um Brasil que ainda não chegou – mas que parecia estar, naquela época, prestes a surgir com a “evolução da liberdade”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-61" style="margin-left: 7px; margin-right: 7px;" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/02/3651-150x117.jpg" alt="A banda paulistana 365" width="150" height="117" />A segunda é &#8220;Sambódromo&#8221;, da <a href="http://www.myspace.com/banda365">banda paulistana 365</a>, em que a visão é menos otimista</span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;">; é mais paulistana, talvez se possa dizer. Lembremos que São Paulo foi e é chamada de cidade feia por muitos, porque não contém as belezas naturais do Rio de janeiro, além de ser considerada o “túmulo do samba” por <a href="http://www.viniciusdemoraes.com.br/">Vinícius de Morais</a>. Mais do que isso: para <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2202200904.htm">Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo de domingo</a>, o carnaval paulistano é mera imitação do já artificial carnaval carioca. Finho e Ari Baltasar, do 365, parecem concordar: “<span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT">Na margem que passa junto ao rio inerte / Um templo sem graça faz que se diverte”. A alusão à Marginal do Tietê – rio que talvez esteja inerte porque não tem vida alguma, devido à poluição – é flagrante, da mesma forma que o artificialismo da “folia”, o que se repete em outros versos, como “Vida importada, morte nacional / Farsa anunciada, juízo final”. </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;"><span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT">Neles e em vários outros, reafirma-se a ideia de que a tal folia nada mais é do que um espetáculo no “padrão Globo de qualidade” – expressão do mesmo Jânio de Freitas – calculadamente arquitetado para estrangeiros se fascinarem com “a beleza da mulher brasileira” e com “a alegria e a criatividade de nosso povo”, lugares-comuns que podem desviar nossos olhares e os dos gringos para muitos aspectos menos festivos da realidade nacional. Durante os desfiles, todos os anos, os apresentadores da Globo não param de afirmar que a festa é transmitida para mais de cem países; para Jânio de Freitas, a festa é uma farsa, porque exclui o povo: “</span>Se o povão fica à margem, Carnaval não é”.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;">O 365 concorda: “<span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT">Gente apagada brilha pra turista / A massa cansada dança pra estatística / Beija a fantasia e se sente gente / Finge que é sonho, mundo diferente”. Eis aí uma das críticas mais recorrentes à “maior festa popular do planeta” – nos cinco dias do carnaval, fantasia-se um sonho de Brasil diferente, de alternativa de futuro que nunca se realiza, porque na quarta-feira de cinzas tudo volta ao normal. Daí os primeiros versos da canção –<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>“Luzes do futuro vão iluminar / Um presente escuro onde eu fui brilhar” – notáveis por vários motivos: as “luzes do futuro” (isto é, as luzes das <em>promessas jamais realizadas</em> de futuro, repetidas todos os anos, em todos os carnavais) vão iluminar “um presente escuro” (este sim real, concreto, cruel, mas abrilhantado e <em>ofuscado</em> pelas tais “luzes do futuro”) onde o eu que canta foi brilhar em primeira pessoa – o que remete à falsa ideia de que todos os que desfilam na avenida são iguais, sejam eles ricos, pobres, celebridades, anônimos, brancos, negros ou mestiços. Mentira, é claro: nos sites e revistas de fofocas, não faltam textos sobre as exigências e excentricidades dos famosos para que desfilem como destaques, <em>ofuscando</em> os anônimos.</span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Calibri&quot;,&quot;sans-serif&quot;; mso-ansi-language: PT; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-bidi-language: AR-SA;" lang="PT"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-62" style="margin-left: 10px; margin-right: 10px;" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/02/renato-sorriso-blog-157x300-150x150.jpg" alt="Renato Sorriso, o gari festivo do carnaval do Rio de Janeiro" width="150" height="150" />O carnaval, e os sonhos de um Brasil diferente, entretanto, sempre ganham ponto final na quarta-feira de cinzas: “Quando tudo é cinza / Vassoura na mão / Só ele tem cor / Vai varrer o chão”. <span style="mso-spacerun: yes;"> </span>O mais assustador, contudo, é que até um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Y43Oy4G4xEg">gari carioca, festivo e animado, tenha se tornado celebridade</a>, depois de sambar enquanto varria a avenida: <a href="http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/02/14/renato-sorriso-%E2%80%9Cminha-vassoura-e-meu-passaporte%E2%80%9D/">Renato Sorriso</a> já gravou comerciais com </span><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Calibri&quot;,&quot;sans-serif&quot;; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-bidi-language: AR-SA;">Gisele Bundchen e Zeca Pagodinho, além de ter participado de uma novela da Globo</span><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Calibri&quot;,&quot;sans-serif&quot;; mso-ansi-language: PT; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-bidi-language: AR-SA;" lang="PT">. E repete-se mais uma vez o sonho tão falso e tão brasileiro de que todos que estão na avenida podem tornar-se celebridades.</span></p>
<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/25/tudo-igual-na-quarta-de-cinzas/' addthis:title='365: tudo igual na quarta de cinzas' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></content:encoded>
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		<title>Chico Buarque e a alternativa de futuro</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 17:59:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/19/uma-alternativa-de-futuro/' addthis:title='Chico Buarque e a alternativa de futuro'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Prometi, na coluna anterior, que ia comentar “Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e não me dei conta da dor de cabeça que arrumei. O problema é o seguinte: o Chico é uma unanimidade. As mulheres o acham sensual, consideram-no um especialista em alma feminina; os homens o admiram pela obra de protesto, [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/19/uma-alternativa-de-futuro/' addthis:title='Chico Buarque e a alternativa de futuro' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Prometi, na coluna anterior, que ia comentar “Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e não me dei conta da dor de cabeça que arrumei. O problema é o seguinte: o Chico é uma unanimidade. As mulheres o acham sensual, consideram-no um especialista em alma feminina; os homens o admiram pela obra de protesto, por ser filho do Sérgio Buarque de Holanda, autor das célebres <em>Raízes do Brasil</em>, e por ser a encarnação do homem brasileiro que gosta de samba, futebol, feijoada, cachaça e mulher (não necessariamente nessa ordem, pelo amor de deus); a crítica o julga um dos maiores compositores do país; sua obra literária vai do teatro ao romance, sempre com sucesso. Enfim: o homem é uma autoridade quase incontestável.</p>
<p>Partilho de boa parte dos julgamentos acima, mas tenho certeza de que muitos leitores vão me repreender por não incluir, neste texto, os superlativos que se costuma atribuir a Chico Buarque. A intenção, aqui, é clara (e passa longe do descabelamento exagerado ao compositor): observar que “Vai Passar” é obra carregada do momento em que foi escrita – o período de redemocratização do Brasil, em meados da década de oitenta –, mas, principalmente,  apontar que a força dessa canção transcende esse período histórico, por haver nela um projeto de futuro, por meio do qual o país superaria os atrasos do passado.</p>
<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/9A_JrsJF6mM&#038;hl=pt-br&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/9A_JrsJF6mM&#038;hl=pt-br&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
<p>“Vai Passar” é um samba-enredo. Num raciocínio bastante simples: anualmente, cada escola de samba elege, digamos, um<em>tema </em>a desenvolver – uma passagem histórica, uma personalidade (o próprio Chico já foi homenageado pela Mangueira), uma região do Brasil, por exemplo. Escolhido o tema, é preciso dar-lhe <em>concretude </em>por um processo a que se pode chamar<em>alegoria</em>: todas as fantasias, todas as alas, todos os carros devem ser, de alguma maneira, materializações daquele tema, que também é desenvolvido no samba-enredo. Pois bem, a hipótese é a seguinte: em “Vai Passar”, o desfile dos “barões famintos”, dos “napoleões retintos” e dos “pigmeus dos boulevards” nada mais é do que a alegoria do que se desejava superar na história do Brasil. Atenção: não se trata, apenas, de acabar com a Ditadura Militar – o que restringiria demais a canção –, mas de vencer quaisquer períodos de nossa história em que a desigualdade social se acentuou e em que houve cerceamento da liberdade.</p>
<p>O carnaval tem sido visto, basicamente, de duas maneiras por nossos intelectuais: como uma festa popular, de origens imemoriais, que representa, de fato, a cultura nacional; ou como um meio de alienação, em que a população, esgarçada pela exploração das classes dominantes, vai às ruas esbaldar-se em samba, suor e cerveja, para esquecer o sofrimento do ano inteiro. Para o antropólogo Roberto da Matta, no livro <em>Carnavais, malandros e heróis</em>, “o carnaval é um momento de<em>communitas</em>, mas que serve – nas condições da organização social da sociedade brasileira, dividida em classes e segmentos – para manter a hierarquia e a posição das classes”; parece-me que, em “Vai Passar”, a proposta é exatamente fazer prevalecer o “samba popular”, original, primordial, anulando o efeito alienante que ele assumiu e fazendo dele meio de superação das desigualdades.</p>
<p>Um professor, colega do cursinho, lembrou-me, recentemente, de que o verso inicial “vai passar” aludia à Emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente, em 1984. A emenda não foi adiante, não “passou” (e, enquanto escrevo este texto, lembro-me, arrepiado, de pessoas que gritavam, nesse dia de derrota, em Brasília, a frase “A luta continua”), mas a canção marcou a época, ou vice-versa. Segundo a letra, na avenida vai passar um “samba popular”, o que leva a crer que estamos, de fato, diante de um texto em que o carnaval não é visto como instrumento de alienação. Pelo contrário, tudo remete à tradição do povo, à sua cultura: os paralelepípedos – forma antiga de calçamento – vão se arrepiar ao lembrar que, por ali, passaram “sambas imortais” e “sambaram nossos ancestrais”.</p>
<p>Há, contudo, um corte: embora alegre, o samba-enredo se torna quase soturno ao se lembrar de um tempo que era “página infeliz da nossa história”, de que as novas gerações já não se lembram. Nesse período, a pátria dormia, “subtraída em tenebrosas transações”; seus filhos “erravam cegos pelos continentes” (imagino, aqui, os retirantes, zanzando daqui para acolá, num país de dimensões continentais, ou os exilados políticos em países distantes) e “levavam pedras feito penitentes” (carregar pedra é trabalho associado a presídios). Mas um dia, “tinham direito a uma alegria <em>fugaz” </em>– isto é, passageira – “uma ofegante <em>epidemia </em>que se chamava carnaval”. Ora, epidemia é termo associado à doença, à miséria, à falta de saneamento básico. Em resumo, é preciso – superando esse passado nefasto e nada sadio – construir um Brasil novo, que guarde elementos populares de sua cultura.</p>
<p>Muitos leitores imaginarão que estou viajando, mas acho que não, porque logo depois entram “em cena”, na canção, desfilando, as alas antitéticas de uma escola de samba, num momento em que aquela página infeliz de nossa história já foi virada: são os barões famintos – o primeiro termo, que remete a proprietários de terra, barões do café, é relativizado pelo adjetivo “famintos” – os napoleões retintos – no mesmo efeito, os imperadores que são negros – e os pigmeus dos boulevards – pequenos-burgueses afrancesados que, literalmente, <em>perderam estatura</em>, apequenaram-se. É a plena alegoria da superação do Brasil atrasado, da desigualdade extrema, que virou festa: no futuro projetado na canção, a injustiça social é representada por aquelas alas exatamente porque ficou no passado, já virou <em>história</em>, “passagem desbotada na memória das novas gerações”. Ficaram no passado as feridas do país, e a passagem das alas se propaga no espaço – toda a cidade está cantando – e no tempo – “até o dia clarear”. O sanatório é o lugar em que se curam as doenças; o “estandarte do sanatório geral” é alegoria da recuperação e da superação das feridas do passado, a bandeira que representa um Brasil cuja doença “vai passar”, isto é, vai ser curada.</p>
<p>Concluindo: as alegorias que desfilam aos olhos do leitor/ouvinte – quase podemos ver o desfile enquanto <em>ouvimos </em>a canção – representam figuras históricas que <em>já terão passado</em> pela história do Brasil quando se alcançar o futuro desejado, isto é, desfilam agora figuras que <em>serão históricas</em> no futuro esboçado pelos autores. Não há classes superiores ou inferiores: barões, elites e burguesia <em>viraram história</em>; o que há é igualdade, por isso resta a Deus – o único que é superior, que paira acima de toda a cidade – assistir ao espetáculo: “Meu Deus, vem olhar / vem ver de perto uma / Cidade a cantar / a evolução da liberdade / até o dia clarear”. De fato, segundo o mesmo Roberto da Matta: “as escolas enquadram sua unidade na possibilidade de criar um espaço que, embora ligado por um cordão umbilical ao ‘morro’, à favela e à pobreza, permite a junção – para o carnaval – de gente rica, branca e bem nascida com os pobres e pretos. As escolas, então, promovem uma sistemática integração dessas classes no seu desfile altamente complexo”.</p>
<p>Na alternativa de futuro que se pode observar em “Vai Passar”, transcende-se a idéia de que a escola de samba promove a integração das classes: há, ali, o ideal de <em>supressão e superação</em> das diferenças sociais, restando apenas a tradição do carnaval, capaz de tornar a “página infeliz da nossa história” uma alegoria. A “evolução da liberdade” pode ser entendida como o <em>desenvolvimento </em>da liberdade – a aniquilação das explorações – e como a combinação entre a base sonora do samba-enredo e a dança das alas, que dançam e cantam, compassadamente, a <em>liberdade</em>, diretamente associada ao <em>samba </em>original, manifestação genuinamente popular e autenticamente brasileira, que superou, na canção, sua versão epidêmica, doente.</p>
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